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domingo, 24 de março de 2019

Etnobotânica: Magia das Ervas - Verbena

Magia das Ervas - Verbena 

 Verbena (Verbena spp.)
(Vervain - Devil's Bane - Herba Sancta - Juno's Tears)
Por Iago Ferraz Wild

O nome verbena é usado para diversas espécies do gênero botânico Verbena, mas imagina-se que o uso folclórico mais usual seja da Verbena Comum, Verbena officinalis. É muito associada à proteção, clarividência, bruxaria, feitiçaria e sabedoria. Teria sido inclusive, um dos ingredientes que a Deusa Ceridwen utilizou no seu caldeirão para fazer sua famosa poção. 
Para os romanos, era uma "planta de altar" e também muito associada à Deusa Vênus (não por acaso também é muito relacionada aos trabalhos de amor). Já foi associada também à Deusa Ísis / Aset. Quando Ísis chorou, verbenas floresceram em todos os lugares onde suas lágrimas caíram. O mesmo para Hera e Juno, por isso também é chamada de Juno's Tears (lágrimas de Juno). Usada em oferendas para Thor.
Diz-se ainda que era usada por Rei Salomão para purificar os templos e há algumas lendas de que foi a erva usada para limpar os ferimentos de Cristo após a crucificação. 
Ela é nativa da Europa, mas se espalhou bem pelas Américas. Por isso, em certos lugares você pode dar a sorte de encontrar próxima à arbustos, beiras de estradas e morros e terrenos baldios. É muito fácil memorizar essa planta e identificá-la no ambiente. 
Porém, se não encontrar ela por aí, devido ao seu uso medicinal relacionado à propriedades sedativas, diuréticas e calmantes (entre outras) você facilmente encontrará em lojas de produtos naturais, farmácias de manipulação, lojas de plantas ornamentais ou na internet. Além de comprar partes secas, é uma planta fácil de plantar e te-la plantada em casa traz proteção.
Conforme já podemos avaliar ao observar alguns nomes populares da planta como "Devil's Bane" ("Destruição do Diabo"), ou "Herba Sancta" ("Erva Santa"), a verbena tem uso muito associado à proteção e banimentos.

INFORMAÇÕES BOTÂNICAS:
É uma planta herbácea, perene, com um aspecto ereto e folhas profundamente lobadas, dispostas de maneira oposta, com bordas dentadas e inflorescências com muitas flores pequenas, com cinco pétalas, variando de azul-claro a roxo. Cresce no verão, é fácil de cultivar e gosta de solos bem drenados.

Resultado de imagem para verbena officinalis bothanic
(Imagem 1)

USOS MÁGICOS:
[Elemento: Terra e Água] [Regência: Vênus]
[Deuses: Thor, Isis / Aset, Juno, Hera, Ceridwen, Júpiter]
  • Combinada com quaisquer outras ervas acredita-se por alguns que aumenta a ação dessas ervas.
  • Usada em trabalhos e encantamentos de proteção, purificação e banimento. Também associada à trabalhos de transfiguração e criação/destruição de ilusões.
  • Consagração de altares e objetos.
  • Memorização (colocando embaixo do travesseiro ou banhando-se com a infusão).
  • Em certas regiões celtas, dizia-se que sua força era maior se colhida no meio do verão ou em momentos que nem o Sol e nem a Lua pudessem ser vistos no Céu. Também queimavam folhas secas e espalhavam pelos jardins e plantações para garantir fertilidade.
  • Embora a consequência de tomar um chá de verbena antes de dormir seja ter um sono tranquilo e "sem sonhos", seu uso é associado antes do sono para despertar a intuição, trazer sonhos proféticos, fortalecer poder mágico e trabalhar sonhos e pesadelos.
  • Doenças e males físicos causados por magia e energias podem ser combatidos com verbena. Uma das formas é carregar um saquinho com folhas secas junto ao corpo.
  • Pendurada no pescoço, protege de dores de cabeça e picadas de cobra.
  • Retarda efeitos de uma maldição sofrida.
  • De acordo com Scott Cunningham, na Enciclopédia de Ervas Mágicas, tomar infusão de verbena no primeiro dia de Lua Nova, tiraria o desejo sexual da pessoa por vários anos, técnica muito usado pelos que procuravam castidade.
  • O valor mágico mais famoso é o associado à sua força para combater e desafiar energias indesejadas. Alguns métodos populares são:
    • Usar uma coroa de verbena ao invocar ou ter que lidar com algum espírito ou entidade negativo ou que possa ser negativo, te tornaria protegido de ser influenciado.
    • Aspergir infusão de verbena em um ambiente, objeto ou pessoa, pode ser o bastante para afastar ou no mínimo revelar maus espíritos e demônios. Uma pessoa sob essas influências, tende a ficar extremamente incomodada na presença da planta.
    • Pode ajudar a quebrar feitiços e influências de bruxas.
    • Associada com os trevos de três folhas certos e com hipericão (Hypericum perforatum) tornaria uma bruxa completamente impotente.
    • Penduradas secas no lado de fora, ou em vasos e jardins, afastaria vampiros e bêbados.
    • Protege a casa do mau tempo.
    • Transforma azar em sorte ao se enrolar toda uma vela com verbena e depois acender.
    • Um raminho fresco carregado em sua pessoa ajuda a proteger contra feitiços de magia perversos lançados contra você.
  • Pode ser usada para encantos em momentos de extrema necessidade, pois dá carga extra de força.
  • Também por isso, é comum se usar óleo de verbena nas mãos antes de fazer um ritual ou feitiço.
  • Outra crença, é que para se ter algo, você pode passar o óleo de verbena na mão e não tocar nada até tocar o que / quem você quer. 
  • Também é associada a trabalhos para o amor.
    • Na idade média, um pó de amor era feito utilizando verbena, erva-campeira (Inula helenium) e folhas de visco (Viscum album).
    • Um cozido de uma dose de vinho com um punhado de verbena, seria uma boa poção para amor e luxúria.
    • Misturando com noves ervas de Vênus, faria um encanto de amor poderoso.
    • Usada pra reacender amores perdidos.
  • Para ativar, desbloquear ou recuperar poderes mágicos, existe a seguinte poção: Ferver 500ml de água junto com uma colher de chá de verbena, um pequeno pedaço de gengibre e uma colher de chá de folhas de amieiro (Alnus glutinosa).
USOS MEDICINAIS:
  • É muito popular como calmante na Europa, tendo indicações contra o nervosismo, estresse, distúrbios gastrointestinais relacionados ao nervosismo e distúrbios do sono. Também possui propriedades anti-inflamatórias, diuréticas e, dizem, afrodisíacas. Mulheres que estão tendo problemas com a menstruação devido ao estresse também podem encontrar algum alívio em tomar o chá de verbena.
  • Antes de usar qualquer fitoterápico, estude bem a metodologia e as doses corretas para suas intenções!
Imagem relacionada
(Imagem 2)


Fontes:
[Herbs of the Northern Shaman: A Guide to Mind-altering Plants of the Northern Hemisphere - Steve Andrews]
[Encyclopedia of 5000 spells - Judika Illes]
[Cunningham’s Encyclopedia of Magickal Herbs - Scott Cunningham]

[Remedio-caseiro: Verbena, usos e propriedades. https://www.remedio-caseiro.com/verbena-usos-e-propriedades-dessa-planta/]
[Shadow Magick Place: Verbena, herb of pure magick. http://shadowsmagickplace.blogspot.com/2014/09/verbena-herb-of-pure-magick.html]
[Webmd: Verbena. https://www.webmd.com/vitamins/ai/ingredientmono-88/verbena]
[Witchipedia: Vervain. http://www.witchipedia.com/herb:vervain]

Imagens:
[1]: http://www.stuartxchange.org/Verbena.html
[2]: https://www.thegrowers-exchange.com/Vervain_p/her-vrv01.htm


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O ELO ENTRE VAMPIROS, BRUXAS, FEITICEIROS E CORUJAS


O ELO ENTRE VAMPIROS, BRUXAS, FEITICEIROS E CORUJAS
Por: Iago Ferraz Wild (Puck)

   Quando se fala sobre vampiros, podemos pescar informações e mitos de diversas regiões e culturas. Neste caso, destacam-se as europeias. Mas, aqui falaremos especialmente sobre os vampiros da Romênia, talvez os mais influentes na cultura globalizada devido a fama da Transilvânia. 
   Muitos indícios apontam que os vampiros romenos, em algumas de suas interpretações, seriam as próprias bruxas e feiticeiros, mitificados pelo medo dos civis e recebendo crendices populares que os associam aos mortos vivos com poderes demoníacos, sem sabermos ao certo se esses feiticeiros e bruxarias também se denominavam strigoi -vampiros romenos- ou não. 
   Em uma descrição superficial, os vampiros romenos chamados Strigoi, seriam o espírito de mortos ou mortos-vivos que não contentes com o túmulo, atormentam os vivos. Os strigoi possuem tanto um caráter fantasmagórico, associados à poltergeists e aparições, quanto o que se espera de um vampiro no atual imaginário popular: um monstro sanguinário. 
 Podemos entender estes aspectos diferentes através da terminologia romena, onde os "strigoi mort" apresentam o aspecto imaterial, sendo o espírito de mortos que retornam ao mundo dos vivos, especialmente para a casa onde viveram com suas famílias. Então, começam a exercer influências fantasmagóricas e demoníacas, iniciando-se com poltergeists, até a destruição de colheitas e o enfraquecimento de sua família até a morte. Neste último estágio, já possui forças para sair de onde foi seu lar e atormentar à outros. 
   Já os "strigoi viu", os vampiros vivos, são mais próximos do que entendemos como vampiros. Possuem habilidades mágicas, como a invisibilidade, a transformação em animais e a capacidade de drenar a vida das outras pessoas através do sangue. E é aí que começa a ficar interessante. Esses vampiros possuem essas habilidades pois são feiticeiros. 
   Lembre-se que a figura da feiticeira foi associada ao hábito de usar o sangue alheio para manutenção de sua beleza e juventude, uma crença comum em várias partes da Europa. A interpretação dessa crença na Romênia pode ser o que gera a ideia de imortalidade dos strigoi, difundida em algumas versões.
   De acordo com Adrian Cremene, em seu livro "Mythologie du vampire en Roumanie", este tipo de strigoi (strigoi viu) usava suas habilidades para tirar a produção de agricultores, também sendo capazes de controlar as chuvas e trazer granizo, além de lançar maldições de morte. 
   Apesar disso, saber que os strigoi seriam feiticeiros não quer dizer que a figura do vampiro seria uma interpretação ou uma classe dos praticantes de bruxaria e feitiçaria da época e região, mas outras coisas podem sugerir isso. 
   Essas informações não tem a intenção de dizer que os vampiros romenos seriam necessariamente as bruxas e feiticeiros da região, pois além dos strigoi mort, existem várias representações de vampiros, acreditados de carne e osso, que enriquecem o folclore da Transilvânia, atual Romênia, e que não se ligam às compreensões de bruxaria e feitiçaria. A intenção é mostrar que algumas dessas diversas interpretações os mostra como bruxas e feiticeiros (ou mostra as bruxas e feiticeiros como vampiros), que por seus poderes sobrenaturais eram vistos literalmente como seres sobrenaturais. 
   Para começar, o nome dado às bruxas em romeno é strigoaică, basicamente uma palavra feminina para strigoi. Ambas as palavras derivam de strigä, que significa "grito", "pio de coruja" ou especificamente uma referência às coruja-das-torres, ou coruja-rasga-mortalha (corujas da família Tytonidae). As corujas, como muitos sabem, apresentam relações folclóricas com a bruxaria e até mesmo no Brasil as rasga-mortalhas são temidas pela crença de que seu piado ou o evento de ser sobrevoado por uma é um presságio de morte. 
 Os mistérios da palavra "strigä" não param na coruja. Os equivalentes italianos da palavra, também descendentes do latim "strix (coruja) como "strigä", são "strege", "strighe" ou "striga", que são literalmente nomes dados às bruxas italianas, das chamadas Stregheria e Stregoneria, conhecidas também como Vecchia Religione, ou simplesmente, Bruxaria Italiana.
  Palavras semelhantes também são referidas como "bruxa" em outros idiomas como o português de Portugal (estrige), embora na maioria dos idiomas apareça apenas como "coruja". "Stryge", no francês, diz respeito de criaturas femininas voadoras e demoníacas.

"O termo é striges na Grécia, strigoi na Romênia, e strega na Itália. Esta bruxa foi muitas vezes uma mulher capaz de mudar de forma e voar pela noite sob a forma de um pássaro, mais frequentemente uma coruja. Ela sugava sangue humano e tinha respiração venenosa." (Eli Edward Burriss, 1931).

  Os animais associados aos strigoi e suas transformações ainda coincidem com os animais associados à bruxaria no imaginário europeu, como corujas (obviamente), cães, gatos, sapos, cobras, aranhas e é claro, morcegos.  

"Se o falecido tem cabelo vermelho, ele está muito propenso ao fato de voltar na forma de cão, sapo, pulga ou percevejo, e que entrar em casas durante a noite para sugar o sangue de jovens lindas. Portanto, é prudente esgueirar o caixão com força ou, melhor ainda, enfiar uma estaca no peito do cadáver." (Élisée Reclus, 1887).

  De acordo com certas fontes, os romenos ainda acreditavam que os vampiros se reuniriam em grupos, como clãs, para trocar conhecimentos e confraternizar. Desta ultima informação eu não pude confirmar a veracidade em artigos acadêmicos mais confiáveis, mas achei interessante compartilhar caso o leitor deseje se aprofundar na pesquisa. 
  Já em uma perspectiva cristã, os praticantes de bruxaria teriam grande probabilidade de se tornarem vampiros após a morte e no geral, a figura da bruxa era associada à figura da vampira, pois os religiosos defendiam que ambas haviam vendido a alma para o Diabo. De acordo com artigo "From Woods and Water to The Gran Bazaar: Images of Romania in English Travelogues After WWI", de Andi Sâsâiac, em 1923, uma mulher teria sido acusada de feitiçaria na Romênia sendo também suspeita de ser uma vampira.
   A verdade é que a tendencia do homem sempre foi de terceirizar ao sobrenatural suas tragédias, como a morte de seus bebês e a pouca fartura de suas colheitas (o que eu acho possível, porém muito exagerado em muitos casos), e isso refletia na imagem daquelas figuras que estariam ligadas à práticas ditas sobrenaturais, o que já é o suficiente para conectarmos as bruxas e os vampiros. A partir do cristianismo no entanto, certamente isso se agrava e, como todos sabem, a imagem dos praticantes de feitiçaria ou os que mantiveram crenças e tradições pagãs são demonizados e perseguidos, quando não diretamente, indiretamente através da difusão de associações entre o Capeta e o Mal do Mundo às figuras como as bruxas e strigoi.
  Por isso, acredito que entender a relação e o contexto entre essas figuras é um jeito de honrar não só as culturas, tradições e os folclores pagãos, mas de honrar nossos ancestrais e antepassados da Arte e dos Velhos Caminhos. Ancestrais e antepassados que na velha Transilvânia, de acordo com as associações folclóricas (mesmo que não saibamos se "strigoi" era apenas um termo perjorativo e de uso externo ou se também era usado pelos verdadeiros praticantes de feitiçaria) além de bruxas, feiticeiros e pagãos, eram vampiros. 
- Texto de Iago Ferraz Wild (Puck)- Gruta do Bardo.

Coruja-rasga-mortalha (Tyto alba) e seu "grito".


Bibliografia utilizada:
-  "Mythologie du vampire en Roumanie" - Adrien Cremene.
- "From Woods and Water to The Gran Bazaar: Images of Romania in English Travelogues After WWI" - Andi Sâsâiac. 
- "The Creatures of Night: Vampires From Books to Films" - Andre Marc Strumer.
- "Vampire in Mythologie und Folklore.” - Marco Frenschkowski.
- "Nouvelle Géographie Universalle, 1887" - Élisée Reclus.
-"Taboo, Magic, Spirits: A Study of Primitive Elements in Roman Religion" - Eli Edward Burriss.
- Wikipédia: Strigoi (https://pt.wikipedia.org/wiki/Strigoi ; https://en.wikipedia.org/wiki/Strigoi)
- How Stuff Works (https://science.howstuffworks.com/science-vs-myth/strange-creatures/vampire3.htm)



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