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domingo, 24 de março de 2019

Etnobotânica: Magia das Ervas - Verbena

Magia das Ervas - Verbena 

 Verbena (Verbena spp.)
(Vervain - Devil's Bane - Herba Sancta - Juno's Tears)
Por Iago Ferraz Wild

O nome verbena é usado para diversas espécies do gênero botânico Verbena, mas imagina-se que o uso folclórico mais usual seja da Verbena Comum, Verbena officinalis. É muito associada à proteção, clarividência, bruxaria, feitiçaria e sabedoria. Teria sido inclusive, um dos ingredientes que a Deusa Ceridwen utilizou no seu caldeirão para fazer sua famosa poção. 
Para os romanos, era uma "planta de altar" e também muito associada à Deusa Vênus (não por acaso também é muito relacionada aos trabalhos de amor). Já foi associada também à Deusa Ísis / Aset. Quando Ísis chorou, verbenas floresceram em todos os lugares onde suas lágrimas caíram. O mesmo para Hera e Juno, por isso também é chamada de Juno's Tears (lágrimas de Juno). Usada em oferendas para Thor.
Diz-se ainda que era usada por Rei Salomão para purificar os templos e há algumas lendas de que foi a erva usada para limpar os ferimentos de Cristo após a crucificação. 
Ela é nativa da Europa, mas se espalhou bem pelas Américas. Por isso, em certos lugares você pode dar a sorte de encontrar próxima à arbustos, beiras de estradas e morros e terrenos baldios. É muito fácil memorizar essa planta e identificá-la no ambiente. 
Porém, se não encontrar ela por aí, devido ao seu uso medicinal relacionado à propriedades sedativas, diuréticas e calmantes (entre outras) você facilmente encontrará em lojas de produtos naturais, farmácias de manipulação, lojas de plantas ornamentais ou na internet. Além de comprar partes secas, é uma planta fácil de plantar e te-la plantada em casa traz proteção.
Conforme já podemos avaliar ao observar alguns nomes populares da planta como "Devil's Bane" ("Destruição do Diabo"), ou "Herba Sancta" ("Erva Santa"), a verbena tem uso muito associado à proteção e banimentos.

INFORMAÇÕES BOTÂNICAS:
É uma planta herbácea, perene, com um aspecto ereto e folhas profundamente lobadas, dispostas de maneira oposta, com bordas dentadas e inflorescências com muitas flores pequenas, com cinco pétalas, variando de azul-claro a roxo. Cresce no verão, é fácil de cultivar e gosta de solos bem drenados.

Resultado de imagem para verbena officinalis bothanic
(Imagem 1)

USOS MÁGICOS:
[Elemento: Terra e Água] [Regência: Vênus]
[Deuses: Thor, Isis / Aset, Juno, Hera, Ceridwen, Júpiter]
  • Combinada com quaisquer outras ervas acredita-se por alguns que aumenta a ação dessas ervas.
  • Usada em trabalhos e encantamentos de proteção, purificação e banimento. Também associada à trabalhos de transfiguração e criação/destruição de ilusões.
  • Consagração de altares e objetos.
  • Memorização (colocando embaixo do travesseiro ou banhando-se com a infusão).
  • Em certas regiões celtas, dizia-se que sua força era maior se colhida no meio do verão ou em momentos que nem o Sol e nem a Lua pudessem ser vistos no Céu. Também queimavam folhas secas e espalhavam pelos jardins e plantações para garantir fertilidade.
  • Embora a consequência de tomar um chá de verbena antes de dormir seja ter um sono tranquilo e "sem sonhos", seu uso é associado antes do sono para despertar a intuição, trazer sonhos proféticos, fortalecer poder mágico e trabalhar sonhos e pesadelos.
  • Doenças e males físicos causados por magia e energias podem ser combatidos com verbena. Uma das formas é carregar um saquinho com folhas secas junto ao corpo.
  • Pendurada no pescoço, protege de dores de cabeça e picadas de cobra.
  • Retarda efeitos de uma maldição sofrida.
  • De acordo com Scott Cunningham, na Enciclopédia de Ervas Mágicas, tomar infusão de verbena no primeiro dia de Lua Nova, tiraria o desejo sexual da pessoa por vários anos, técnica muito usado pelos que procuravam castidade.
  • O valor mágico mais famoso é o associado à sua força para combater e desafiar energias indesejadas. Alguns métodos populares são:
    • Usar uma coroa de verbena ao invocar ou ter que lidar com algum espírito ou entidade negativo ou que possa ser negativo, te tornaria protegido de ser influenciado.
    • Aspergir infusão de verbena em um ambiente, objeto ou pessoa, pode ser o bastante para afastar ou no mínimo revelar maus espíritos e demônios. Uma pessoa sob essas influências, tende a ficar extremamente incomodada na presença da planta.
    • Pode ajudar a quebrar feitiços e influências de bruxas.
    • Associada com os trevos de três folhas certos e com hipericão (Hypericum perforatum) tornaria uma bruxa completamente impotente.
    • Penduradas secas no lado de fora, ou em vasos e jardins, afastaria vampiros e bêbados.
    • Protege a casa do mau tempo.
    • Transforma azar em sorte ao se enrolar toda uma vela com verbena e depois acender.
    • Um raminho fresco carregado em sua pessoa ajuda a proteger contra feitiços de magia perversos lançados contra você.
  • Pode ser usada para encantos em momentos de extrema necessidade, pois dá carga extra de força.
  • Também por isso, é comum se usar óleo de verbena nas mãos antes de fazer um ritual ou feitiço.
  • Outra crença, é que para se ter algo, você pode passar o óleo de verbena na mão e não tocar nada até tocar o que / quem você quer. 
  • Também é associada a trabalhos para o amor.
    • Na idade média, um pó de amor era feito utilizando verbena, erva-campeira (Inula helenium) e folhas de visco (Viscum album).
    • Um cozido de uma dose de vinho com um punhado de verbena, seria uma boa poção para amor e luxúria.
    • Misturando com noves ervas de Vênus, faria um encanto de amor poderoso.
    • Usada pra reacender amores perdidos.
  • Para ativar, desbloquear ou recuperar poderes mágicos, existe a seguinte poção: Ferver 500ml de água junto com uma colher de chá de verbena, um pequeno pedaço de gengibre e uma colher de chá de folhas de amieiro (Alnus glutinosa).
USOS MEDICINAIS:
  • É muito popular como calmante na Europa, tendo indicações contra o nervosismo, estresse, distúrbios gastrointestinais relacionados ao nervosismo e distúrbios do sono. Também possui propriedades anti-inflamatórias, diuréticas e, dizem, afrodisíacas. Mulheres que estão tendo problemas com a menstruação devido ao estresse também podem encontrar algum alívio em tomar o chá de verbena.
  • Antes de usar qualquer fitoterápico, estude bem a metodologia e as doses corretas para suas intenções!
Imagem relacionada
(Imagem 2)


Fontes:
[Herbs of the Northern Shaman: A Guide to Mind-altering Plants of the Northern Hemisphere - Steve Andrews]
[Encyclopedia of 5000 spells - Judika Illes]
[Cunningham’s Encyclopedia of Magickal Herbs - Scott Cunningham]

[Remedio-caseiro: Verbena, usos e propriedades. https://www.remedio-caseiro.com/verbena-usos-e-propriedades-dessa-planta/]
[Shadow Magick Place: Verbena, herb of pure magick. http://shadowsmagickplace.blogspot.com/2014/09/verbena-herb-of-pure-magick.html]
[Webmd: Verbena. https://www.webmd.com/vitamins/ai/ingredientmono-88/verbena]
[Witchipedia: Vervain. http://www.witchipedia.com/herb:vervain]

Imagens:
[1]: http://www.stuartxchange.org/Verbena.html
[2]: https://www.thegrowers-exchange.com/Vervain_p/her-vrv01.htm


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O ELO ENTRE VAMPIROS, BRUXAS, FEITICEIROS E CORUJAS


O ELO ENTRE VAMPIROS, BRUXAS, FEITICEIROS E CORUJAS
Por: Iago Ferraz Wild (Puck)

   Quando se fala sobre vampiros, podemos pescar informações e mitos de diversas regiões e culturas. Neste caso, destacam-se as europeias. Mas, aqui falaremos especialmente sobre os vampiros da Romênia, talvez os mais influentes na cultura globalizada devido a fama da Transilvânia. 
   Muitos indícios apontam que os vampiros romenos, em algumas de suas interpretações, seriam as próprias bruxas e feiticeiros, mitificados pelo medo dos civis e recebendo crendices populares que os associam aos mortos vivos com poderes demoníacos, sem sabermos ao certo se esses feiticeiros e bruxarias também se denominavam strigoi -vampiros romenos- ou não. 
   Em uma descrição superficial, os vampiros romenos chamados Strigoi, seriam o espírito de mortos ou mortos-vivos que não contentes com o túmulo, atormentam os vivos. Os strigoi possuem tanto um caráter fantasmagórico, associados à poltergeists e aparições, quanto o que se espera de um vampiro no atual imaginário popular: um monstro sanguinário. 
 Podemos entender estes aspectos diferentes através da terminologia romena, onde os "strigoi mort" apresentam o aspecto imaterial, sendo o espírito de mortos que retornam ao mundo dos vivos, especialmente para a casa onde viveram com suas famílias. Então, começam a exercer influências fantasmagóricas e demoníacas, iniciando-se com poltergeists, até a destruição de colheitas e o enfraquecimento de sua família até a morte. Neste último estágio, já possui forças para sair de onde foi seu lar e atormentar à outros. 
   Já os "strigoi viu", os vampiros vivos, são mais próximos do que entendemos como vampiros. Possuem habilidades mágicas, como a invisibilidade, a transformação em animais e a capacidade de drenar a vida das outras pessoas através do sangue. E é aí que começa a ficar interessante. Esses vampiros possuem essas habilidades pois são feiticeiros. 
   Lembre-se que a figura da feiticeira foi associada ao hábito de usar o sangue alheio para manutenção de sua beleza e juventude, uma crença comum em várias partes da Europa. A interpretação dessa crença na Romênia pode ser o que gera a ideia de imortalidade dos strigoi, difundida em algumas versões.
   De acordo com Adrian Cremene, em seu livro "Mythologie du vampire en Roumanie", este tipo de strigoi (strigoi viu) usava suas habilidades para tirar a produção de agricultores, também sendo capazes de controlar as chuvas e trazer granizo, além de lançar maldições de morte. 
   Apesar disso, saber que os strigoi seriam feiticeiros não quer dizer que a figura do vampiro seria uma interpretação ou uma classe dos praticantes de bruxaria e feitiçaria da época e região, mas outras coisas podem sugerir isso. 
   Essas informações não tem a intenção de dizer que os vampiros romenos seriam necessariamente as bruxas e feiticeiros da região, pois além dos strigoi mort, existem várias representações de vampiros, acreditados de carne e osso, que enriquecem o folclore da Transilvânia, atual Romênia, e que não se ligam às compreensões de bruxaria e feitiçaria. A intenção é mostrar que algumas dessas diversas interpretações os mostra como bruxas e feiticeiros (ou mostra as bruxas e feiticeiros como vampiros), que por seus poderes sobrenaturais eram vistos literalmente como seres sobrenaturais. 
   Para começar, o nome dado às bruxas em romeno é strigoaică, basicamente uma palavra feminina para strigoi. Ambas as palavras derivam de strigä, que significa "grito", "pio de coruja" ou especificamente uma referência às coruja-das-torres, ou coruja-rasga-mortalha (corujas da família Tytonidae). As corujas, como muitos sabem, apresentam relações folclóricas com a bruxaria e até mesmo no Brasil as rasga-mortalhas são temidas pela crença de que seu piado ou o evento de ser sobrevoado por uma é um presságio de morte. 
 Os mistérios da palavra "strigä" não param na coruja. Os equivalentes italianos da palavra, também descendentes do latim "strix (coruja) como "strigä", são "strege", "strighe" ou "striga", que são literalmente nomes dados às bruxas italianas, das chamadas Stregheria e Stregoneria, conhecidas também como Vecchia Religione, ou simplesmente, Bruxaria Italiana.
  Palavras semelhantes também são referidas como "bruxa" em outros idiomas como o português de Portugal (estrige), embora na maioria dos idiomas apareça apenas como "coruja". "Stryge", no francês, diz respeito de criaturas femininas voadoras e demoníacas.

"O termo é striges na Grécia, strigoi na Romênia, e strega na Itália. Esta bruxa foi muitas vezes uma mulher capaz de mudar de forma e voar pela noite sob a forma de um pássaro, mais frequentemente uma coruja. Ela sugava sangue humano e tinha respiração venenosa." (Eli Edward Burriss, 1931).

  Os animais associados aos strigoi e suas transformações ainda coincidem com os animais associados à bruxaria no imaginário europeu, como corujas (obviamente), cães, gatos, sapos, cobras, aranhas e é claro, morcegos.  

"Se o falecido tem cabelo vermelho, ele está muito propenso ao fato de voltar na forma de cão, sapo, pulga ou percevejo, e que entrar em casas durante a noite para sugar o sangue de jovens lindas. Portanto, é prudente esgueirar o caixão com força ou, melhor ainda, enfiar uma estaca no peito do cadáver." (Élisée Reclus, 1887).

  De acordo com certas fontes, os romenos ainda acreditavam que os vampiros se reuniriam em grupos, como clãs, para trocar conhecimentos e confraternizar. Desta ultima informação eu não pude confirmar a veracidade em artigos acadêmicos mais confiáveis, mas achei interessante compartilhar caso o leitor deseje se aprofundar na pesquisa. 
  Já em uma perspectiva cristã, os praticantes de bruxaria teriam grande probabilidade de se tornarem vampiros após a morte e no geral, a figura da bruxa era associada à figura da vampira, pois os religiosos defendiam que ambas haviam vendido a alma para o Diabo. De acordo com artigo "From Woods and Water to The Gran Bazaar: Images of Romania in English Travelogues After WWI", de Andi Sâsâiac, em 1923, uma mulher teria sido acusada de feitiçaria na Romênia sendo também suspeita de ser uma vampira.
   A verdade é que a tendencia do homem sempre foi de terceirizar ao sobrenatural suas tragédias, como a morte de seus bebês e a pouca fartura de suas colheitas (o que eu acho possível, porém muito exagerado em muitos casos), e isso refletia na imagem daquelas figuras que estariam ligadas à práticas ditas sobrenaturais, o que já é o suficiente para conectarmos as bruxas e os vampiros. A partir do cristianismo no entanto, certamente isso se agrava e, como todos sabem, a imagem dos praticantes de feitiçaria ou os que mantiveram crenças e tradições pagãs são demonizados e perseguidos, quando não diretamente, indiretamente através da difusão de associações entre o Capeta e o Mal do Mundo às figuras como as bruxas e strigoi.
  Por isso, acredito que entender a relação e o contexto entre essas figuras é um jeito de honrar não só as culturas, tradições e os folclores pagãos, mas de honrar nossos ancestrais e antepassados da Arte e dos Velhos Caminhos. Ancestrais e antepassados que na velha Transilvânia, de acordo com as associações folclóricas (mesmo que não saibamos se "strigoi" era apenas um termo perjorativo e de uso externo ou se também era usado pelos verdadeiros praticantes de feitiçaria) além de bruxas, feiticeiros e pagãos, eram vampiros. 
- Texto de Iago Ferraz Wild (Puck)- Gruta do Bardo.

Coruja-rasga-mortalha (Tyto alba) e seu "grito".


Bibliografia utilizada:
-  "Mythologie du vampire en Roumanie" - Adrien Cremene.
- "From Woods and Water to The Gran Bazaar: Images of Romania in English Travelogues After WWI" - Andi Sâsâiac. 
- "The Creatures of Night: Vampires From Books to Films" - Andre Marc Strumer.
- "Vampire in Mythologie und Folklore.” - Marco Frenschkowski.
- "Nouvelle Géographie Universalle, 1887" - Élisée Reclus.
-"Taboo, Magic, Spirits: A Study of Primitive Elements in Roman Religion" - Eli Edward Burriss.
- Wikipédia: Strigoi (https://pt.wikipedia.org/wiki/Strigoi ; https://en.wikipedia.org/wiki/Strigoi)
- How Stuff Works (https://science.howstuffworks.com/science-vs-myth/strange-creatures/vampire3.htm)



Fonte imagem: https://br.pinterest.com/pin/546272629776290587/

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Uma Aventura Xamânica com o Menino Lobo

Uma Aventura Xamânica com o Menino Lobo
- Por: Iago Ferraz Wild (Puck)

“Chill, o abutre, conduz a noite incerta, 
A que o morcego Mang ora liberta.
As manadas dormem no curral nesta hora,
Porque vagamos livres até a aurora.
Esta é a hora do orgulho e da força,
Das patas, das presas e das garras.
Ouçam o grito! Boa caçada para todos
Os que respeitam a Lei do Jângal." 
- Canção noturna do Jângal



Acredito que a maioria conheça ou já tenha ouvido falar em 'Mowgli (ou Mogli), o Menino Lobo", talvez pelas animações e pela mais recente adaptação para o cinema, ou o próprio "Livro da Selva" (The Jungle Book), que na versão que eu li (que traz apenas os contos que envolvem o menino) e venho escrever sobre, a palavra "selva" ou "jungle" são substituídas por "Jângal". Jângal vem do sânscrito jangala, se referindo à uma vegetação típica da Índia, parecida com o que chamaríamos genericamente de Selva. 


"Boa sorte te acompanhe, ó Chefe dos Lobos; e boa caça e dentes rijos tenham teus nobres filhos, e que nunca se esqueçam dos famintos deste mundo!" - Diz Tabaqui, o Chacal, que costuma se alimentar dos restos da caça dos lobos.

O autor Rudyard Kipling publicous as histórias de Mowgli em dois livros, mas compilados em um só na edição que adquiri, "Histórias de Mowgli, do Livro  do Jângal", da Editora Martin Claret, edição de bolso, traduzida por Casemiro Linarth e com uma capa magnificamente linda. Mas vamos ao que interessa!


"Ler este livro é aprender a ser mais humano; é entender como são as inter-relações dos homens com as lições dadas pela Natureza." 
- Luiz Carlos Gabriel, professor, jornalista e participante do Movimento Escoteiro no Brasil.

Não é difícil imaginar como a história de um menino criado por lobos, ensinado por um urso, uma pantera e uma cobra e crescido em meio à selva pode ser observada e absorvida sobre um olhar pagão, ainda mais se considerarmos que a obra literária é muito diferente e muito mais profunda que as adaptações da Disney. 
Alguns pontos que mostram diferenças que ajudam a entender a complexidade dos contos sem estragar a emoção da leitura para aqueles que ainda não leram, são o fato de Mowgli não ser uma presa vulnerável e temente ao maligno tigre Shere Kan, mas um corajoso e temível oponente; Bagheera, a pantera, na verdade ser uma fêmea que apesar de maternal, é temida e implacável; Baloo, ao invés de um urso preguiçoso e malandro, é um professor rígido, sério e comprometido; Kaa, a cobra, embora ardilosa, mais do que um personagem secundário, é uma grande companheira do menino e que se mostra muito importante em vários momentos; e por fim, os lobos, que tem importância maior no livro do que nas adaptações e nem sempre se mostram favoráveis ao menino, com exceção daqueles que fazem parte de sua família e sempre são leais. 

É importante ter essas diferenças em mente, pois a representação adaptada e limitada destes personagens nas telinhas não permitem que se perceba o profundo papel de professores e da transferência de suas Medicinas Xamânicas para o menino Mowgli. 

As Medicinas
Grosso modo, o uso popular e contemporâneo do termo "Medicina Animal", refere-se aos ensinamentos, mensagens, energias e aspectos de cada arquétipo animal espiritual, bem como suas capacidades de nos curar espiritual e emocionalmente, nos mentorar e guiar no sentido da evolução, superação e realização, além de nos perfurar com suas garras e presas quando for necessário para nosso aprendizado. Nos contos de Mowgli, o filhote de homem é literalmente guiado e ensinado por animais, e tendo sido proposital da parte do autor ou não, esses ensinamentos trazem nuances de suas medicinas sagradas e simbolismos.

Midnight Panther.gifBagheera, a Pantera, em seu comportamento de proteção e cuidado intensos perante o menino evoca a força da maternidade felina com seus filhotes, que podemos observar na natureza. Evoca ainda, a qualidade do instinto, pois desde antes de conhecer o menino já oferecera um touro como presente para convencer os companheiros animais à aceitá-lo no Jângal. Bagheera sempre ensinou a cautela ao menino, ao mesmo tempo que o ensinava a ser corajoso, implacável e astuto, qualidades que podemos encontrar na medicina e simbologia desse animal e no seu comportamento na Natureza. A paciência e calma também são marcantes, embora seja uma das figuras mais temidas e respeitadas.

Bear.gifBaloo, o Urso, é o personagem que ao meu ver, junto com a cobra Kaa, mas expõe claramente a medicina do animal que representa. Sendo um dos animais totêmicos mais antigos em várias culturas pelo mundo, o Urso é um grande protetor e um grande sábio, mas que exige extremo respeito e se coloca com rigidez e firmeza, sendo claro que a mesma força que ele tem para proteger, tem para atacar com suas patas fortes e garrar afiadas, e que a mesma sabedoria que tem para ensinar, tem para caçar. Essas características são muito claras no amado Baloo, o responsável por tutorar o menino lobo fazendo com que ele aprenda profundamente a Lei do Jângal em todas as suas especificidades, além de aprender os diferentes 'idiomas' e conhecer as histórias sobre os animais e lugares. Embora seja um dos grandes protetores do menino, Baloo exige firmemente que ele aprenda seus ensinamentos e se posiciona de forma dura e agressiva quando ele não corresponde a essas expectativas, mesmo que precise usar suas garras. Enquanto Bagheera mostra uma grande sabedoria sobre o cotidiano, Baloo mostra uma grande sabedoria sobre a selva e sobre a vida. 

Snake.gifKaa, a Cobra Píton, é um dos mais temidos seres do Jângal, seja pelo seu incrível tamanho e abraço mortal, ou seja por ser encantadora e ardilosa a ponto de atrair sua presa para seu abraço de boa vontade, através de seu poder de fascinação, uma hipnose fantástica. Esse respeito é marcante na medicina da Grande Cobra, bem como o potencial de transformação e a grande sabedoria, também percebidas em Kaa. Além das transformações óbvias em suas mudanças de pele, devido aos conselhos e atitudes frutos de seu vasto conhecimento, Kaa é o principio motivador de grandes transformações e passagens na vida de Mowgli e de seu meio, exercendo o mesmo papel que o Espírito da Cobra exerce em nossas vidas quando chamado. 

War Wolf.gifGloom Wolf.gifOs lobos, em um sentido que imagino que você só conseguirá desfrutar totalmente através da leitura dos contos, trazem o sentido da lealdade, da importância do clã e do companheirismo, ao mesmo tempo que representam um dos princípios mais agressivos da floresta, seja como caçadores ou seja entre eles próprios, através de observações que o autor fez certamente estudando o comportamento desses animais na Natureza, e assim retratando seu espírito de forma precisa e poética. O próprio Mowgli, em sua personalidade e comportamento, naturalmente mostra muito da Medicina do Lobo, como a inteligência, a lealdade e a destreza.

Elephant.gifHathi, o Eefante, traz de forma linda a sabedoria e a carga ancestral do ser sagrado que é o Elefante. Não por acaso, ele é o Senhor do Jângal, e por todos respeitado. 

"Hathi nunca faz as coisas antes de chegar a hora, e este é um dos motivos por que sua vida é tao longa."

Outros ensinamentos
As relações e os dialogos entre os animais, entre os quais eu incluo Mowgli, o filhote de homem e menino lobo, dizem muita coisa sobre as leis da natureza e sobre valores importantes para o funcionamento do mundo. Um dos pontos fortes é a gratidão, vista quando Mowgli não se alimenta de touros, por ter sua vida sido comprada por um; ou na passagem em que Bagherra compromete-se em deixar parte de sua caça para Chil, o Abutre, em gratidão por sua ajuda. Assim, comportamentos selvagens e valores humanos se unem criando uma história rica de ensinamentos, desde travessuras com Ikki, o Porco Espinho, até o enfrentamento épico com Shere Kan, o Tigre Manco. 

Ainda temos o Povo Macaco que, ao meu ver, traz grandes críticas ao próprio comportamento humano. Ao invés desses personagens trazerem medicinas e sabedorias correspondentes ao animal, os macacos, chamados de Bandar-log, tem uma imagem muito negativa (enquanto lia eu pensava: que droga de bicho chato!) e são detestados e desprezados por todos os outros seres da selva. Isso se dá, pois os Bandar-log estão sempre gritando, exercendo uma necessidade infantil de serem percebidos, atacando os outros sem motivo, destruindo tudo, brigando entre si e se intitulando os seres mais sábios e importantes do Jângal, além de serem os únicos a não seguirem a Lei da Selva, ou Lei do Jângal. Pra mim, nem precisaria saber que os macaquinhos são, entre os personagens, os mais próximos geneticamente da raça humana para entender a descrição deles como uma critica ao que se tornou a humanidade, a relação dela com os outros seres e o afastamento deles como consequência. Nos associar aos Bandar-log é um bom jeito de perceber o quanto soa patético nosso comportamento viciado por atenção e a ilusão de superioridade perante o mundo. Após a leitura, quando vejo escândalos por futebol, plateias para brigas de colégio, lixeiras depredadas e especismos ridículos, acho impossível não ver as pessoas como Baldar-logs e seu culto pela barbárie e a desordem.  

"Quatro coisas nunca estão contentes,
nunca estão saciadas desde que o Orvalho começou:
a boca de Jacala, o crocodilo; o papo do Abutre;
As mãos dos Macacos e os Olhos dos Homens."
- Provérbio do Jângal

No mais, recomendo de todo coração a leitura dos Contos de Mowgli para todos, principalmente para os pagãos. Os valores são admiráveis e a história por si só é bonita, cativante e surpreendente, sendo com certeza um dos livros que lerei para meus filhos.
 Texto de Iago Ferraz Wild (Puck)- Gruta do Bardo.

Lei da Selva para os Lobos
"Agora, esta é a lei da selva, tão antiga e tão verdadeira como o céu que se eleva,
E o lobo que a guardará prosperará, mas o lobo que o quebrará morrerá.

Como o cipó que circunda o tronco da árvore, a lei corre para futuro e para passado;
A força da alcateia é o lobo, e a força do lobo é o alcateia.

Lave-se diariamente da ponta do nariz à ponta da cauda; beba em abundância, mas nunca em demasia;
E lembre-se que a noite é para caça e não se esqueça de que o dia é para dormir.

O chacal pode seguir o tigre, mas, filhote de lobo, quando seus bigodes são crescerem,
Lembre-se que o lobo é um caçador - saia e obtenha sua comida própria.

Mantenha a paz com os senhores da selva, o tigre, a pantera, o urso;
E não pertube Hathi, o Silencioso e não zombe do javali em sua toca.

Quando duas alcateias cruzam sua trilha e pretendem permanecer,
Deite-se até os líderes terem conversado; Pode ser que as palavras justas tudo resolvam.

Quando você lutar com um lobo da alcateia, você deve lutar contra ele sozinho e longe,
Para que outros não participem da briga e o alcateia seja diminuído pela guerra.

O covil do lobo é seu refúgio, e onde ele o fez sua casa,
Nem mesmo o lobo chefe pode entrar, nem mesmo o Conselho pode vir se não forem convidados.

O covil do lobo é seu refúgio, mas se estiver muito em vista,
O conselho deve enviar-lhe uma mensagem, e então ele deve mudar-se novamente.

Se você matar antes da meia-noite, fique em silêncio e não acorde o bosque com seu uivo,
Para que não assustes os cervos das colheitas deixem os teus lobos irmãos de barriga vazia.

Poderás matar para si mesmo, e para os teus companheiros, e para os teus filhotes que precisam;
Mas não mate pelo prazer de matar e lembre-se sete vezes de nunca matar o homem.

Se tomar a caça de alguém mais fraco, não devore tudo em seu orgulho,
A Lei da Alcateia protege o mais humilde; então deixe-lhe a cabeça e a pele.

A matança da alcateia é a carne da alcateia. Você deve comer onde está;
E ninguém pode levar essa carne para o seu covil, ou poderá perder a vida.

A matança do lobo é a carne do lobo. Ele pode fazer o que quiser e levar para onde quiser,
Mas, até que ele tenha dado permissão, a alcateia não pode comer daquela matança.

Direito do Covil é um direito de Mãe. Ela pode reivindicar
Um lance de cada matança pra seus filhotes, e ninguém pode negar.

É direito do lobinho de um ano
 De toda alcateia ele pode reivindicar
Depois de cheio uma parte do alimento; e nenhum pode recusá-lo da mesma forma.

Direito do Covil é um direito de Pai, caçar sozinho para si próprio e para os seus;
Ele é liberado de todas as chamadas da alcateia. Ele é julgado apenas pelo Conselho.

Por sua idade e sua astúcia, por suas garras e por seu peso
Em tudo o que a lei deixa a palavra aberta, a lei do Chefe é lei.

Agora, estas são as leis da selva, e muitos e poderosos são elas;
Mas a cabeça e o casco da lei e o casco e a anca  são - Obedeça! "


-Rudyard Kipling (1865-1936)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O Pão e o Vinho a.C.

O Pão e o Vinho a.C.
Por Iago Ferraz Wild (Puck)


Imagem relacionada
  A simbologia do Pão e Vinho na história e espiritualidade são anteriores à Cristo e aos mistérios da Igreja. Não venho trazer essa informação pela ladainha de "acusar o Cristianismo de plágio" (como se não fosse natural todos os meios religiosos incorporarem elementos anteriores), mas para aproximar os mistérios dessa fé com as antigas fés e defender a contradição que é o proselitismo.


  Muito se pode trazer sobre o tema, desde desconhecidos hábitos rurais dos antigos camponeses pagãos, até a difundida relação do vinho com Dionísio e Baco. Porém, hoje trarei Diana para mostrar uma profunda relação entre a associação vinho-Santo Sangue e pão-Santo Corpo e o olhar espiritual pré-cristão.


  Diana é uma deusa relacionada com a Lua e a Floresta, embora o estudo aprofundado dessa divindade mostre-a como "Senhora de Todo o Cosmos e Natureza". Sua correspondência cósmica vem também de suas interpretações como Criadora, mas principalmente ao observar que anterior à sua assimilação lunar, a divindade fora vista como a "Senhora das Estrelas e dos Céus", além da etimologia de seu nome apontar para o dia e o Sol (um aspecto curioso e misterioso para uma Deusa que, dentro de nossa História mais conhecida, é na maioria das vezes noturna). Já a carga de "Senhora de Toda a Natureza" possui uma base científica, no sentindo de observação e sabedoria sobre o funcionamento dos ciclos da Terra: Se uma Divindade rege a Lua, necessariamente rege o Mar. E se rege o Mar, necessariamente rege toda a Vida na forma que conhecemos. Não por acaso, a "Senhora da Lua" é também a "Senhora dos Bosques". 

  Em seu culto mais primitivo, ou seja, não o Romano (e muito menos os que sustentam afirmações de Diana como correspondente de Ártemis), encontramos o pão e o vinho com atribuições semelhantes às do Cristianismo. Algumas das evidências folclóricas provavelmente são d.C., resgatadas na Itália, mas são certamente projeções de cultos etruscos muito mais antigos que a própria mitologia romana clássica. 

  A primeira evidência é encontrada na "Conjuração do Vinho à Diana", uma cerimônia que intenta tanto aprimorar a qualidade da bebida quanto clamar por uma boa e saudável safra de uvas quando as condições estão desfavoráveis. Abaixo, segue um fragmento da conjuração em tradução adaptada ao português:

"Bebo porém não do vinho,
Mas do Sangue de Diana,
Pois o vinho se transformou em seu sangue,
e se derramou em minhas videiras em crescimento..."

 Dentro de uma lógica pagã, é óbvio associar os alimentos ao corpo e as bebidas ao sangue dos Deuses, uma vez que são produtos da Natureza e essa Natureza é literalmente parte do corpo material dos Deuses. Mas, o vinho toma uma simbologia especial por ser uma bebida que traz alegria e vigor ao consumidor, o que casa com a ideia de que todo prazer é um ato ritual à Diana.

 Em relação ao pão como corpo, observem um fragmento da Conjuração do Trigo:

"Conjuro-te, ó trigo! Que és nosso corpo e sem a ti não podemos viver..."

 Nesse trecho, o trigo (em alusão ao pão), é tratado não como corpo de Diana, mas como o nosso, o que sob um olhar teológico de culto à Terra, significa literalmente a mesma coisa. Mas caso isso esteja passível de interpretações diferentes, encontramos uma afirmação mais clara em uma invocação de Diana:

"Não asso o pão com o sal,
Nem cozinho o mel com o vinho,
Asso o corpo, o sangue e a alma,
A alma da (grande) Diana..."

 Para além disso, vamos encontrar na literatura diversas associações da Deusa ao pão e principalmente ao vinho, mas chamo a atenção para esta última cerimônia pois ela está associada a uma ceia devotiva, portanto santa, onde os celebrantes sentam-se à mesa e celebram o corpo e sangue de Diana, num mistério semelhante à "Santa Ceia", que se difere principalmente por ser feito na escuridão sagrada da noite e com os corpos dos homens e mulheres completamente desnudos, pois além de a nudez ser sagrada à Diana, a noite evocava um espirito de liberdade e afastamento das opressões que deveria ser celebrado, sem a maldade e banalização associada à nudez de hoje em dia.


 Por fim, é notável que até hoje o pão é um símbolo comum do alimento e do sustento, enquanto o vinho ainda rega os corações e os desejos de homens e mulheres, mostrando uma sacralidade que surge em tempos imemoráveis, se ressignifica no mundo cristão e perdura no imaginário, independente de credos.
Texto de Iago Ferraz Wild (Puck)- Gruta do Bardo.



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"La Dianara" de Enrico Isernia e "Diana cacciatrice" de Guercino, respectivamente.

Textos originais, em italiano,
extraídos de "Aradia:
O Evangelho das Bruxas",
obra do antropólogo
Charles G. Leland.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Moana e Paganismo [Sem Spoilers]


"Moana: Um Mar de Aventuras" é a mais nova animação da Disney, que traz a história de Moana, filha de um chefe de uma tribo polinésia, que embora ciente de suas obrigações como futura líder, sente seu coração e seu espírito chamados constantemente para além do oceano. Para nós, o mais fascinante é que ao retratar a cultura polinésia, o filme desenvolve um enredo baseado nos mitos locais, mostrando naturalmente e de uma forma muito sensível, elementos comuns e importantes das espiritualidades pagãs.
Não sei dizer o quão fiel à cultura e aos mitos polinésios é a história, porém, é fácil identificar a essência pagã -não necessariamente proposital- que essa obra de arte carrega desde a primeira até a última cena.
A tribo local acredita que uma Deusa Mãe e primordial, com o poder de gerar a vida, cria ao seu redor tudo que é vivo, sendo ela também a própria Terra que concentra seu Divino Ser em uma ilha sagrada. A chamada Te Fiti resgata um conceito geral de crenças pagãs da Deusa-Terra, a Mãe de Todas as Coisas, que com seu amor, toque e sopro tudo cria e transforma e sobre qual o corpo nós vivemos, comemos, fod nos reproduzimos e morremos. Uma figura semelhante à Gaia em um lindo mito tropical, que exalta além da terra, o oceano.
Somos apresentados a Maui, um semideus (e lendário herói da cultura polinésia), conhecido por ser um metamorfo e por ter ensinado ao homem o domínio do fogo e outras tecnologias. Tentando agraciar ainda mais os mortais, Maui rouba o coração de Te Fiti, que supostamente teria o poder da vida, mas acaba desencadeando uma terrível situação que introduz o enredo da história.

A partir disso, nos deparamos com vários conceitos dos caminhos pagãos:
  • O Chamado;
  • A busca pelo autoconhecimento;
  • O poder da Terra e dos Deuses -e a consequência do desequilíbrio com ambos-
  • A conexão com os Deuses através dos elementos e o aprendizado com os mesmos;
  • Espíritos animais;
  • O lado negro dos Deuses e a divina polaridade;
  • Experiências xamânicas;
  • Contatos espirituais;
  • Ancestralidade;
  • Sabedoria dos anciões;
  • Reencarnação;
  • Propósitos sagrados;
  • Coragem;
  • Inspiração divina e espiritual;
  • Poder da fé;
  • Serviço à comunidade e liderança;
  • Aprendizado;
  • Amor, amizade e lealdade.
"Moana: Um Mar de Aventuras" tem um enredo cativante, personagens apaixonantes e inspiradores -principalmente Moana e sua avó- e revelações surpreendentes, além de ser (na minha suspeita opinião de canceriano com lua em peixes) extremamente emocionante e sensível, principalmente para quem conhece o Chamado dos Antigos e tem o amor pagão vibrando no coração. Assistam!
Texto de Iago Ferraz Wild (Puck)- Gruta do Bardo.

Moana: Uma Mar de Aventuras - Trailler



terça-feira, 27 de setembro de 2016

La Voce Del Dio

La Voce Del Dio

Ouçam as palavras do Grande Deus, maior do que a Existência e o Tempo. Aquele que foi chamado de muitos nomes e está vivo em todas as fés, até entre os cegos e tolos seguidores da cruz.
Quando quiserem sentir Minha presença em sua forma mais pura, reúnam-se em um local secreto onde a Natureza seja maior do que as criações dos homens parvos. Saibam que Minhas Leis e Segredos os tornarão livres, pois Sou o Grande Pai, o Portador dos Chifres da Vida e das Garras da Morte. Todos os atos de amor e prazer são os meus rituais e o único pecado é reprimir teus desejos.
Eu sou a Luz, estou no Sol, na Lua e na Ciência, mas meu ser também é pleno na escuridão. Sou o Pai e Mestre das fadas, bruxas e vampiros, e também de tudo aquilo que é selvagem. Sou a Serpente que traz a Sabedoria e Libertação e através de mim você conhecerá a Magia, o Prazer e os Mistérios. Levarei teu espírito para voar e cavalgar com Diana. Farei da Floresta tua casa e seus seres serão teus irmãos.
Eu sou o Caçador, vivo em todos os predadores; e sou a Caça, que se sacrifica nas mãos da Caçadora para que a vida continue sua Dança. Sou o Jovem, o Guerreiro, o Pai, o Feiticeiro, o Ancião, o Iniciador e o Mensageiro. Sou o Filho, o Consorte e o Irmão.
Nenhum homem pode impedir teu alegre culto a Mim, pois meus filhos e filhas são livres e irredutíveis por aqueles que não conhecem minha liberdade. A sabedoria, a inteligência e a Iluminação serão sempre teus aliados, pois sou o Portador da Luz e Guardião do Caldeirão.
Por isso, atentos, saibam que estou com vocês desde o início e os erguerei com minhas asas ao Reino das Estrelas ao fim de sua existência terrena.
Texto de Iago Ferraz Wild (Puck) - Gruta do Bardo.


sábado, 7 de novembro de 2015

O Mantenedor da Vida

O Mantenedor da Vida 
Por Iago Ferraz Wild (Puck)

   Hades entre os gregos, Plutão entre romanos e Aita entre os etruscos. O Senhor dos Mortos e do Submundo sempre intimidou os mortais devido suas associações como deidade. Platão afirmou que a pronúncia de seu nome era evitada ao máximo pelas pessoas e Homero foi mais longe, o descrevendo como o Deus mais odiado pelos mortais. 
   Por qual motivo Hades, que muitos supõem ser Zeus, Poseidon e Dionísio, foi tão temido e odiado? Por qual motivo, nas filosofias pagãs modernas, ainda é evitado e considerado intimidador por ser considerado um Deus Negro? Tudo isso se explica pela tendência do ser humano em se preocupar mais com a morte do que com a vida, mais com os fins do que com os inícios e meios. 
   Ah, a morte! A temida morte. Tememos perder quem amamos, tememos que quem nos ama nos perca e, principalmente, tememos que a atual vida termine, pois o término é um constante lembrete do fato de que nós, independente da nossa arrogância específica, não temos controle. Sobre nada. 
   Como se não bastasse representar tudo o que mais tememos e não aceitamos, os mitos nos mostram Aita como o raptor daquilo que representa o que mais amamos e aceitamos: A vida, a fertilidade, a beleza...  Mas, ignorando a maquiagem poética e romântica, encontramos no Senhor da Morte e em seu caráter raptor, no sofrimento de Deméter e Perséfone (se você não está familiarizadx, leia os mitos de Hades e Perséfone antes de continuar a leitura) e em todos os fins e sacrifícios, a mais importante face de Hades: O Mantenedor da Vida. 
"The Mythological Tarot", O Arcano Maior "A Morte", do Tarot, é conhecido 
por simbolizar a natureza cíclica, fins e renovações, representado por Hades neste deck.

   Hades é a Terra e o seu interior. É o ciclador da vida. O Sequestro de Perséfone ilustra na verdade, a entrega e amor dela à Hades. Durante a Primavera e o Verão, a maioria das plantas e animais vivem fortes e saudáveis, pois essa vida e fertilidade são Perséfone, a Deusa das Plantas, sempre lembrada pelas flores e perfumes. Nesse propício período sazonal, podemos observar de forma bonita como a Natureza funciona: a vida dos carnívoros depende da vida dos herbívoros; a vida dos herbívoros depende da vida das plantas; a vida das plantas depende da fertilidade da terra. E o que torna a terra fértil e permite que toda a vida continue a seguir? Perséfone! A belíssima Senhora das Flores e Perfumes, Rainha do Submundo.
   É ela quem se entrega ao Senhor do Submundo, deixando que suas flores sequem, que suas folhas caiam, que suas frutas apodreçam e que seus caules e raízes morram. A entrada de Perséfone ao Submundo é a Promessa de Renascimento, a devolução de nutrientes e de riqueza para a Terra (Hades), que permite, ao final do período de Outono-Inverno, que a vida se renove e dance com Perséfone. 
   Em seu período nas profundezas, quando é chamada de Kore, Persephone me faz lembrar da simbologia dos animais que originaram a imagem chifruda de vários Deuses. Como o Veado que ao ser caçado, representa o sacrifício divino que é feito para que possamos sobreviver.


Persephone and Hades - Amy Erickson


   Cada flor e cada folha que admiramos, cada fruta que comemos, é resultado da dança de Perséfone e do Deus da Morte, que também é o Mantenedor da Vida, o Senhor da Terra, Senhor dos Fungos e Decompositores, e portanto, um Deus da Vida. Em cada folha caída, não importa a estação, um beijo de Perséfone em Hades. Em cada semente que brota, um beijo de Hades em Perséfone.

No próximo texto vou desenvolver um pouco mais  o assunto, abordando os Mistérios Eleusinos. 

Que a chuva molhe a terra e que você sinta o perfume de Hades ao subir do petrichor. 
Texto de Iago Ferraz Wild (Puck)- Gruta do Bardo.

sábado, 19 de abril de 2014

Desvendando o agouro

Desvendando o agouro
Por Iago Ferraz Wild (Puck)

   Culturalmente estamos familiarizados com expressões como: urubu é ave de mau agouro; o pio da coruja é agouro de morte; galo cantando de noite é mau agouro. Tais expressões são geralmente oriundas da sabedoria popular, assim, passam de geração em geração através de lendas, relatos e outros elementos folclóricos. 

   I - O agouro
   O agouro é um presságio. Diferente de outros sistemas divinatórios mais comuns, o agouro não envolve o uso de oráculos (como tarot, runas, cristais) e muitas vezes não necessita de nossa técnica e poder (como vidência), mas sim de nossa percepção acerca de eventos espontâneos.

   II- Eventos espontâneos
   Os eventos espontâneos podem se relacionar com outros sistemas divinatórios (por exemplo: enquanto você transporta um saquinho de runas uma delas cai no chão), mas também são percebidos naturalmente em diversos outros momentos aleatórios.
   Entendendo que nosso mundo não para, fica óbvio que eventos espontâneos acontecem o tempo todo. Saberemos que um evento é um agouro quando sentimos que ele foi um sinal, quando estamos esperando ou procurando um sinal, ou quando estamos praticando alguma arte mântica. Em todos os casos nós não teremos certeza se o evento foi um presságio ou não, assim, entendemos que um evento pode ser um agouro e não que necessariamente será.
  A arte de interpretação dos eventos é parecida com a arte da interpretação dos sonhos. Quando queremos averiguar o significado de um sonho separamos pequenos símbolos e estudamos o que podem significar ou pressagiar. O agouro funciona assim.
  
 III- Alguns tipos de agouro
   Existem inúmeros tipos de agouro, afinal, acontecem inúmeros tipos de eventos espontâneos e outros inúmeros eventos aleatórios. No entanto, alguns recebem uma maior atenção e são mais difundidos. Não aprofundarei a interpretação dos agouros, afinal, embora alguns tenham mensagens simples e diretas, muitas vezes um sinal necessita de um profundo estudo para ser entendido, enquanto em outras vezes ele atribui significados pessoais, como acontece nos símbolos dos sonhos. 

Capnomancia: Interpretar a fumaça. Na antiguidade existiam técnicas especificas, mas a arte da capnomancia pode ser usada em diversos outros métodos: queimando ervas ou outro material, percebendo algo na fumaça do incenso, de uma fogueira, incêndio e etc.

Hidromancia: Interpretação de aspectos da água, como movimento, cor, ondulação ou percepção de desenhos. Aliada ao uso da nossa outra visão a hidromancia pode revelar imagens e cenas na água, funcionando como uma bola de cristal.

Aeromancia: Interpretação de aspectos atmosféricos, como o formato das nuvens, clima, arco-íris e outros fenômenos meteorológicos. Exemplo: ver um nuvem em forma de coração, pressagiando assuntos relacionados ao amor.
Aeromancia também envolve meteoromancia, ou seja, a interpretação de características dos meteoros, estrelas cadentes e outros corpos celestes e a ceraunosmancia, que é a observação de sinais em céus tempestuosos, envolvendo principalmente raios, trovões e relâmpagos.

Apantomancia: Interpretação do encontro com objetos ou, principalmente, animais. Exemplo: deparar-se com um grilo, que é um presságio de sorte.

Austromancia ou Anemomancia: Interpretar a direção do vento ou algo relacionado ao vento.

Onintomancia: Interpretação por meio do voo ou canto de aves, significado da ave, encontro ou visão de uma ave, encontro de penas e etc. 

Piromancia: Interpretação de aspectos do fogo, ou do próprio surgimento de uma chama.

Geomancia: Interpretação de aspectos da terra ou areia ou o proposital lançamento de terra sobre uma superfície para posteriormente analisar os padrões. Inclui-se cristais, pedras ou rochas também.

Crioterapia: Interpretação de aspectos do gelo e de baixas temperaturas.

Quiromancia: Interpretação dos aspectos das mãos, principalmente as linhas e os montes.

Teomancia: Receber potencial de adivinhação por inspiração divina. 

Teimancia: Interpretação através da análise dos padrões deixados por folhas do chá ou borra de café.

Outras formas: Esses são são tipos de agouro bem comuns e que eu pretendo tratar especificamente de cada um deles mais tarde, talvez de outros também, contudo, existem diversos outros tipos que serão anexados ao final dessa postagem. 

IV - Trabalhando com agouro
   Para maior eficiência ao trabalhar com esse verdadeiro presente dos Deuses, o agouro, é importante refletir e saber d/as seguintes coisas.
  •   Um evento é uma possibilidade de agouro ou presságio e não necessariamente um. Portanto, ao sentirmos que algo é um sinal é importante anotarmos o evento e estarmos cientes das seguintes coisas: Pode ser um agouro; Pode não ser um agouro; Pode ser um agouro com resultado esperado; Pode ser um agouro com resultado inesperado.
  • As vezes quando acontece algo, percebemos que anteriormente recebemos sinais e não prestamos atenção ou que não interpretamos como um sinal. Anotar essas experiências nos deixa mais atentos para com as próximas vezes.
  • Nunca ignore o significado e simbolismo pessoal que você atribui a alguma coisa. O sinal pode independer das suas atribuições pessoais, bem como pode as significar unicamente  ou ser um misto entre sua concepção e a concepção tradicional.
   Claramente existem outras coisas a serem consideradas, mas essas foram a que considerei inicialmente importantes.

V - Recomendações
   Bom, o próprio texto é uma recomendação ao agouro, que é uma arte a qual acho muito válida e interessante. Mas, além disso, vou compartilhar alguns acessos aqui.

Previsão do tempo: O agouro também é relacionado com a previsão de fenômenos naturais, como o clima. Essa prática é muito enriquecedora para nós e está intimamente ligada com as antigas tradições. Ainda não achei materiais mais completos, mas irei atualizando conforme achar enquanto não faço uma postagem especial para o tema. 
Outras artes mânticas: Bom, achei essa lista na Wikipédia e ela tem bastante coisa. Achei interessante. Contudo, caso se interesse por algum termo da lista, aconselho que pesquise em outras fontes, pois encontrei algumas coisas bem... estranhas. Por exemplo, xilomancia é uma arte mântica que compreende adivinhação com árvores e madeira, mas no site é referido como algo bem diferente.
Texto de Iago Ferraz Wild (Puck) - Gruta do Bardo.
Fonte da imagem: http://remacle.org/bloodwolf/faulx/divinatione/