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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Jararaca no Paganismo Nativo: Katimalalo, Deusa Jararaca, Encantamentos e outros Folclores da Senhora Serpente pelo Brasil


Jararaca no Paganismo Nativo: Katimalalo, Deusa Jararaca, Encantamentos e outros Folclores da Senhora Serpente pelo Brasil
-Por: Iago Ferraz Wild

Um dos nomes de serpentes mais conhecidos pelas terras brasileiras é aquele destinado aos representantes do gênero Bothrops: Jararaca! 
A palavra vem do Tupi ya’raraka, que significa “cobra venenosa”. Entre tantas serpentes peçonhentas pelas matas brasileiras não é à toa que o adjetivo "venenosa" foi exaltado nestas. As espécies de jararaca estão ligadas à grande maioria dos acidentes ofídicos e mortes nas Américas. No Brasil, justamente a que tem a palavra "jararaca" não só no nome popular, mas também no científico (Bothrops jararaca) é uma das mais mencionadas nesses acidentes.
Para além dos casos médicos, é importante lembrar que de maneira geral o paganismo nativo das terras que hoje chamamos de Brasil é xamânico e que sob olhares xamânicos, geralmente venenos são associados à Medicina Espiritual e a grande força e poder do Grandes Espírito, do Mundo Espiritual, dos Deuses e etc.
Substâncias potencialmente enteógenas e/ou tóxicas, quando não manipuladas ritualisticamente ou medicinalmente, como ocorre com várias plantas (Datura, Sananga, plantas da Ayahuasca, etc.), cogumelos (Amanitas, Psilocybe, etc.) e até animais (Vacina do Sapo Kambô e etc.), davam ao ser vivo que as carregava a qualidade de ligantes entre nosso plano cotidiano e o plano espiritual de uma forma muito mais acessível à nossa natureza. Isso significa que toda a Criação possui seus elos entre os planos, mas por algum motivo, a energia daqueles que possuem a "Medicina do Veneno" abrem portais  mais acessíveis para nossa natureza humana, talvez pela capacidade das substâncias de destruir as barreiras de nossa mente que limitam nossa visão e sensibilidade de mundo.
Assim, apesar do veneno da jararaca não ser usado (não que a gente saiba, pois existiram e existem inúmeras tribos e povos com tradições religiosas únicas, misteriosas e desconhecidas) diretamente, ele certamente refletiu no entender religioso que algumas culturas desenvolveram sobre esses animais. Abaixo, listarei algumas dessas crenças, lembrando que nem todas elas são de um contexto pagão nativo, mas que possivelmente tem ele como origem e perduraram e se modificaram na sociedade pós-colonização.

Buhpu Magó - A Mãe das Jararacas
Buhpu Magó, que significa "Filha de Trovão", é uma Deusa dos antigos Desana-Wari Dihputiro Põrã. Ela e seu pai Buhpu, O Trovão, apareceram a partir da danças das primeiras nuvens de toda existência e por isso também são chamados de Imika Mahsã, que significa "Gente das Nuvens". As nuvens são suas malocas. 
Nekamtt era o líder da Gente das Estrelas, que eram rivais da Gente das Nuvens, mas mesmo assim acabou se apaixonando por Buhpu Magó. A Filha do Trovão se aproveitou da situação para destruir o seu grande rival.
Nekamtt estava encantado, pois diferente das outras mulheres daquele tempo, Buhpu Magó já tinha uma vagina. Nas outras, era necessário abrir uma.  Mas Buhpu Magó era muito mais perigosa que as outras. 
Sua vagina era habitada por aranhas, escorpiões, tocandiras e outros seres venenosos. Para completar, seu clitóris podia se transformar em um dente de jararaca. Mas esses ardis eram invisíveis para Nekamtt. Assim, sem que percebesse, cada vez que transavam Buhpu Magó fazia com que os seres venenosos sobre seu Monte Vênus picassem o amante e transformava seu clítoris em presa de víbora para envenenar seu falo. Buhpu Magó era tão poderosa que Nekamtt não conseguia sentir nenhum de seus ataques.
Entre suas armas sexuais e outros ardis, aos poucos foi adoecendo Nekamtt, que foi ficando amarelo, amassado e fraco. E assim ele morreu.
Abe, grande amigo e irmão de Nekamtt, decidiu se vingar. Também se juntou com Buhpu Magó, que pretendia mata-lo como fez com o outro. Mas Abe se preveniu de seus ardis e não fez sexo com ela e assim pode armar uma emboscada para matar Buhpu Magó. 
Sobre uma árvore, Abe atirou sobre Buhpu Magó um cacho de frutas encantado para que ficasse terrivelmente pesado. Quando foi atingida, seu corpo explodiu, mas o útero saiu pela vagina e foi preservado. De seu útero nasceram as ancestrais das jararacas, que fugiram de Abe e se espalharam.
As jararacas que existem hoje são descendentes das jararacas que surgiram nesse evento.
Hoje, nos igarapés, habitam as jararacas que nasceram de Diasó e Diakara, pois elas fugiram para os igarapés.
Nas beiras dos rios, habitam as jararacas que vieram de Moaweru Wuhu Aña ("jararaca de uaramã de sapo"), que fugiu de Abe para dentro das águas do rio.
Entre as raízes e as folhas caídas da floresta, habitam as jararacas que nasceram de Sumenugu Aña ("jararaca de raiz de uacum") e Gurabe Wuaro Aña ("jararaca de ânus grande").
Entre os galhos e copas das árvores, existem as jararacas que vieram de Anã Dihpuru ("cabeça de jararaca"), Umuanobã ("jararaca do alto"), e Wehko Aña (jararaca-papagaio).
Para que mais cobras não saíssem, Abe jogou o útero no rio, o útero lá se transformou numa arraia venenosa, que também fugiu. 

Os Encantamentos de Buhpu Magó
  • Para não ficar viúva:
As vezes mulheres possuem a Força de Buhpu Magó e seu veneno pode deixá-las viúvas. Por isso, ao se tornarem recém casadas ou antes dos casamentos, as mulheres recitavam "wahpewiõ bayimuye bayiriye" para isso não acontecer. 

  • Para auxiliar na cura de picada e envenenamento de serpentes (também uso para pedir proteção antes de entrar em lugares que possa ter cobras):

Invocar o nome das oito jararacas ancestrais: Diasó - Diakara -  Moaweru Wuhu Aña - Sumenugu Aña - Gurabe Wuaro Aña - Anã Dihpuru - Umuanobã - Wehko Aña.


O Vampiro Jararaca
Um dos vampiros brasileiros, seria a jararaca. Não me está claro se é uma entidade ou o próprio animal.
De acordo com o Dr. Bob Curran, em "Vampiros - Um Guia Sobre As Criaturas Que Espreitam à Noite", existem muitas lendas diferentes à respeito da origem das jararacas. Alguns dizem que são almas de falecidos, outros dizem que são demônios, e sabedorias mais primitivas dizem que é a própria aglutinação da escuridão da floresta que tomou vida, ou marcas deixadas pelos antigos deuses bebedores de sangue. 
Mas o que definiria a jararaca como um vampiro, seria a crendice de que, ao anoitecer, ela entraria nos lares em que existissem uma mãe amamentando e, sem ser percebida, entraria entre a mãe e o bebê e mamaria o leite, além de usar a calda para tampar a boca do neném e abafar seu choro. Seu poder sobrenatural faria com que a mãe não percebesse a situação.
Dia após dia, a jararaca poderia visitar a mãe e assim aos poucos o bebê se enfraqueceria e se tornaria uma criança problemática e fraca, ou morreria antes disso. 
Ocasionalmente, levanta o braço de homens adormecidos e também bebe um pouco de sangue. Quando se alimenta, sua saliva secreta substâncias que faz com que a pessoa acorde no dia seguinte atordoada e raivosa. Quando confrontada atira um veneno que gera loucura e pode levar a morte. 
Em zonas rurais do país, mulheres lactantes usam talismãs indígenas e/ou fazem orações antes da amamentação para se proteger. 
(Imagem do livro "Vampiros - Um Guia Sobre As Criaturas Que Espreitam à Noite" de uma Jararaca e uma criatura que o autor chama de "Lobisomen", embora provavelmente seja um equívoco linguístico.)

Na minha opinião, a lenda da jararaca bebedora de leite não tem origem nos povos nativos ("indígenas"), mas é uma interpretação folclórica do fato de comumente se encontrar serpentes nos currais pela manhã. É corriqueiro encontrar cobras quando se vai ordenhar as vacas, o que pode ter gerado o mito de que elas apreciam o leite.

Proteção contra serpentes
Não só para jararacas, acredita-se que carregar bezoar protege do ataque de serpentes, além do bezoar poder ser usado para ajudar na cura, por "sugar o veneno" ao ser encostado na ferida. 
Outros acreditam que carregar um dente de alho no bolso também evita que serpentes cruzem o seu caminho.
Mas vale lembrar que geralmente somos nós que cruzamos o caminho delas, por isso é preciso ter cautela e a ajuda médica não deve ser nunca dispensada nesses casos.

A Jararaca-Papagaio ou Papagaia
Existe um dito popular sobre essa jararaca (Bothriopsis bilineata) assim: 
"A papagaia quando pica sai de lado pra ver tombo".
Outra lenda diz que a papagaia pode seguir uma pessoa que picou até em casa. Pode as vezes se por à cantar como um galo e esse canto faz com que a pessoa envenenada morra imediatamente. É interessante que existem outras referências mitológicas e folclóricas pelo mundo que relacionam cobras aos galos. 

Katimalalo, a Serpente Espírito
O "Espírito da Serpente" é comum no mundo xamânico em várias partes do mundo. Muitas vezes é o Espírito Guia de Jornadas Xamânicas ou rituais como o da Ayahuasca.
Entre os Halíti, existe a crença numa Jararaca Espiritual chamada Katimalalo. Não se sabe muito sobre (pelo menos não encontrei bibliografia à respeito), mas parece que esta entidade é muito importante em sua cultura e espiritualidade. A arte tradicional desse povo usa desenhos no artesanato e nas tatuagens chamados "Zairiyatse", que são inspirados nos padrões do couro da jararaca (padrões chamados de "Matukulydios"). 
Os Zairiyatse podem ainda ser vistos em algumas cavernas. Uma delas ficava em uma cachoeira chamada Garganta da Jararaca, o que nos sugere mais ainda a importância deste animal e de Katimalalo. Infelizmente, a cachoeira da Garganta da Jararaca não existe mais pois virou uma usina hidroelétrica. Espero que a cultura dos Halíti e a força de Katimalalo sobreviva ao "progresso" capitalista.

Respeito ao Espírito da Serpente
Caso algum leitor seja leigo em relação aos mitos à respeito do mundo das serpentes, venho lembrar a importância de respeitarmos e preservarmos esses animais que são os representantes do Espírito da Jararaca, e os representantes do Espírito da Serpente como um todo. Por mais que muitos desses animais sejam perigosos, temos que entender que sendo cuidadosos estaremos seguros e que os invasores somos nós. Não machuque ou mate nenhuma serpente! É perigoso para você mesmo e um ato cruel, desrespeitoso, desonroso e  na maioria dos casos desnecessário, pois é extremamente improvável que sua sobrevivência ou dos seus familiares dependa da execução de uma serpente. Serpentes são importantes no ecossistema, controlando populações de roedores e insetos. Foram a mídia e a cultura popular sem consciência ambiental que as transformoram em vilãs. 
  • Grande parte das serpentes brasileiras não são peçonhentas. Saber identificar a diferença entre serpentes peçonhentas e não-peçonhentas é interessante para sua segurança e para saber como melhor proceder ao encontrar um animal. O grupo "Herpetologia Brasileira" no Facebook pode ser uma ferramenta interessante. 
  •  Se for picado, procure ajuda médica imediatamente. Se fizer isso provavelmente vai dar tudo certo. Se for possível, não esqueça a aparência do animal que te picou, para poder fornecer essas informações caso seja perguntado no tratamento. Acesse esse site para aprender mais sobre primeiros socorros.
  •  Se encontrar uma serpente em sua propriedade, afasta as crianças e animais. Não é recomendável tentar remover o animal sozinho se você não possui prática, mesmo sabendo que cobras só atacam se sentirem ameaçadas. O ideal é entrar em contato com o corpo de bombeiros, polícia ambiental, centro de zoonoses, ou órgãos do gêneros. Enquanto faz a ligação, tente não perder o animal de vista (guia mais elaborado no fim do texto). Se perceber que a pessoa que veio remover a cobra a matou ou pretende matá-la, denuncia! Se você se importa com a Natureza vai se responsabilizar pelo animal até ele ser devolvido à Natureza. Saiba neste site.
  • Proteja as serpentes, proteja a Natureza!!!
-Por: Iago Ferraz Wild
(Imagem: http://www.sbembrasil.org.br/files/v_sipem/PDFs/GT05/CC64691900730_A.pdf)
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Referências Bibliográficas 

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O ELO ENTRE VAMPIROS, BRUXAS, FEITICEIROS E CORUJAS


O ELO ENTRE VAMPIROS, BRUXAS, FEITICEIROS E CORUJAS
Por: Iago Ferraz Wild (Puck)

   Quando se fala sobre vampiros, podemos pescar informações e mitos de diversas regiões e culturas. Neste caso, destacam-se as europeias. Mas, aqui falaremos especialmente sobre os vampiros da Romênia, talvez os mais influentes na cultura globalizada devido a fama da Transilvânia. 
   Muitos indícios apontam que os vampiros romenos, em algumas de suas interpretações, seriam as próprias bruxas e feiticeiros, mitificados pelo medo dos civis e recebendo crendices populares que os associam aos mortos vivos com poderes demoníacos, sem sabermos ao certo se esses feiticeiros e bruxarias também se denominavam strigoi -vampiros romenos- ou não. 
   Em uma descrição superficial, os vampiros romenos chamados Strigoi, seriam o espírito de mortos ou mortos-vivos que não contentes com o túmulo, atormentam os vivos. Os strigoi possuem tanto um caráter fantasmagórico, associados à poltergeists e aparições, quanto o que se espera de um vampiro no atual imaginário popular: um monstro sanguinário. 
 Podemos entender estes aspectos diferentes através da terminologia romena, onde os "strigoi mort" apresentam o aspecto imaterial, sendo o espírito de mortos que retornam ao mundo dos vivos, especialmente para a casa onde viveram com suas famílias. Então, começam a exercer influências fantasmagóricas e demoníacas, iniciando-se com poltergeists, até a destruição de colheitas e o enfraquecimento de sua família até a morte. Neste último estágio, já possui forças para sair de onde foi seu lar e atormentar à outros. 
   Já os "strigoi viu", os vampiros vivos, são mais próximos do que entendemos como vampiros. Possuem habilidades mágicas, como a invisibilidade, a transformação em animais e a capacidade de drenar a vida das outras pessoas através do sangue. E é aí que começa a ficar interessante. Esses vampiros possuem essas habilidades pois são feiticeiros. 
   Lembre-se que a figura da feiticeira foi associada ao hábito de usar o sangue alheio para manutenção de sua beleza e juventude, uma crença comum em várias partes da Europa. A interpretação dessa crença na Romênia pode ser o que gera a ideia de imortalidade dos strigoi, difundida em algumas versões.
   De acordo com Adrian Cremene, em seu livro "Mythologie du vampire en Roumanie", este tipo de strigoi (strigoi viu) usava suas habilidades para tirar a produção de agricultores, também sendo capazes de controlar as chuvas e trazer granizo, além de lançar maldições de morte. 
   Apesar disso, saber que os strigoi seriam feiticeiros não quer dizer que a figura do vampiro seria uma interpretação ou uma classe dos praticantes de bruxaria e feitiçaria da época e região, mas outras coisas podem sugerir isso. 
   Essas informações não tem a intenção de dizer que os vampiros romenos seriam necessariamente as bruxas e feiticeiros da região, pois além dos strigoi mort, existem várias representações de vampiros, acreditados de carne e osso, que enriquecem o folclore da Transilvânia, atual Romênia, e que não se ligam às compreensões de bruxaria e feitiçaria. A intenção é mostrar que algumas dessas diversas interpretações os mostra como bruxas e feiticeiros (ou mostra as bruxas e feiticeiros como vampiros), que por seus poderes sobrenaturais eram vistos literalmente como seres sobrenaturais. 
   Para começar, o nome dado às bruxas em romeno é strigoaică, basicamente uma palavra feminina para strigoi. Ambas as palavras derivam de strigä, que significa "grito", "pio de coruja" ou especificamente uma referência às coruja-das-torres, ou coruja-rasga-mortalha (corujas da família Tytonidae). As corujas, como muitos sabem, apresentam relações folclóricas com a bruxaria e até mesmo no Brasil as rasga-mortalhas são temidas pela crença de que seu piado ou o evento de ser sobrevoado por uma é um presságio de morte. 
 Os mistérios da palavra "strigä" não param na coruja. Os equivalentes italianos da palavra, também descendentes do latim "strix (coruja) como "strigä", são "strege", "strighe" ou "striga", que são literalmente nomes dados às bruxas italianas, das chamadas Stregheria e Stregoneria, conhecidas também como Vecchia Religione, ou simplesmente, Bruxaria Italiana.
  Palavras semelhantes também são referidas como "bruxa" em outros idiomas como o português de Portugal (estrige), embora na maioria dos idiomas apareça apenas como "coruja". "Stryge", no francês, diz respeito de criaturas femininas voadoras e demoníacas.

"O termo é striges na Grécia, strigoi na Romênia, e strega na Itália. Esta bruxa foi muitas vezes uma mulher capaz de mudar de forma e voar pela noite sob a forma de um pássaro, mais frequentemente uma coruja. Ela sugava sangue humano e tinha respiração venenosa." (Eli Edward Burriss, 1931).

  Os animais associados aos strigoi e suas transformações ainda coincidem com os animais associados à bruxaria no imaginário europeu, como corujas (obviamente), cães, gatos, sapos, cobras, aranhas e é claro, morcegos.  

"Se o falecido tem cabelo vermelho, ele está muito propenso ao fato de voltar na forma de cão, sapo, pulga ou percevejo, e que entrar em casas durante a noite para sugar o sangue de jovens lindas. Portanto, é prudente esgueirar o caixão com força ou, melhor ainda, enfiar uma estaca no peito do cadáver." (Élisée Reclus, 1887).

  De acordo com certas fontes, os romenos ainda acreditavam que os vampiros se reuniriam em grupos, como clãs, para trocar conhecimentos e confraternizar. Desta ultima informação eu não pude confirmar a veracidade em artigos acadêmicos mais confiáveis, mas achei interessante compartilhar caso o leitor deseje se aprofundar na pesquisa. 
  Já em uma perspectiva cristã, os praticantes de bruxaria teriam grande probabilidade de se tornarem vampiros após a morte e no geral, a figura da bruxa era associada à figura da vampira, pois os religiosos defendiam que ambas haviam vendido a alma para o Diabo. De acordo com artigo "From Woods and Water to The Gran Bazaar: Images of Romania in English Travelogues After WWI", de Andi Sâsâiac, em 1923, uma mulher teria sido acusada de feitiçaria na Romênia sendo também suspeita de ser uma vampira.
   A verdade é que a tendencia do homem sempre foi de terceirizar ao sobrenatural suas tragédias, como a morte de seus bebês e a pouca fartura de suas colheitas (o que eu acho possível, porém muito exagerado em muitos casos), e isso refletia na imagem daquelas figuras que estariam ligadas à práticas ditas sobrenaturais, o que já é o suficiente para conectarmos as bruxas e os vampiros. A partir do cristianismo no entanto, certamente isso se agrava e, como todos sabem, a imagem dos praticantes de feitiçaria ou os que mantiveram crenças e tradições pagãs são demonizados e perseguidos, quando não diretamente, indiretamente através da difusão de associações entre o Capeta e o Mal do Mundo às figuras como as bruxas e strigoi.
  Por isso, acredito que entender a relação e o contexto entre essas figuras é um jeito de honrar não só as culturas, tradições e os folclores pagãos, mas de honrar nossos ancestrais e antepassados da Arte e dos Velhos Caminhos. Ancestrais e antepassados que na velha Transilvânia, de acordo com as associações folclóricas (mesmo que não saibamos se "strigoi" era apenas um termo perjorativo e de uso externo ou se também era usado pelos verdadeiros praticantes de feitiçaria) além de bruxas, feiticeiros e pagãos, eram vampiros. 
- Texto de Iago Ferraz Wild (Puck)- Gruta do Bardo.

Coruja-rasga-mortalha (Tyto alba) e seu "grito".


Bibliografia utilizada:
-  "Mythologie du vampire en Roumanie" - Adrien Cremene.
- "From Woods and Water to The Gran Bazaar: Images of Romania in English Travelogues After WWI" - Andi Sâsâiac. 
- "The Creatures of Night: Vampires From Books to Films" - Andre Marc Strumer.
- "Vampire in Mythologie und Folklore.” - Marco Frenschkowski.
- "Nouvelle Géographie Universalle, 1887" - Élisée Reclus.
-"Taboo, Magic, Spirits: A Study of Primitive Elements in Roman Religion" - Eli Edward Burriss.
- Wikipédia: Strigoi (https://pt.wikipedia.org/wiki/Strigoi ; https://en.wikipedia.org/wiki/Strigoi)
- How Stuff Works (https://science.howstuffworks.com/science-vs-myth/strange-creatures/vampire3.htm)



Fonte imagem: https://br.pinterest.com/pin/546272629776290587/

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Senhores das Fadas



Prece de Inverno aos Senhores das Fadas


Resultado de imagem para gwyn ap nuddGwyn ap Nudd, que é Rei das Fadas e do Outro Mundo!

Áine, que é Rainha das Fadas e Senhora da Soberania!
Permitam que o Inverno se aproxime feliz,
Resultado de imagem para aine goddess
e que com ele se aproximem de mim as fadas e os espíritos bons!
Assim vos esperarei coloridos ao próximo verão.

Eu honro vossa luz e trevas e peço por tuas bençãos feéricas.
Que eu mergulhe em Awen!
Gwyn entre rochas, Áine entre flores,
me mostrem as fadas e afastem as dores!
Enviem meu amor também aos mortos,
e que as fadas me ajudem e me acompanhem
nos caminhos certos ou tortos!

Awen!
Texto de Iago Ferraz Wild (Puck) - Gruta do Bardo.
A imagem pode conter: texto

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O Pão e o Vinho a.C.

O Pão e o Vinho a.C.
Por Iago Ferraz Wild (Puck)


Imagem relacionada
  A simbologia do Pão e Vinho na história e espiritualidade são anteriores à Cristo e aos mistérios da Igreja. Não venho trazer essa informação pela ladainha de "acusar o Cristianismo de plágio" (como se não fosse natural todos os meios religiosos incorporarem elementos anteriores), mas para aproximar os mistérios dessa fé com as antigas fés e defender a contradição que é o proselitismo.


  Muito se pode trazer sobre o tema, desde desconhecidos hábitos rurais dos antigos camponeses pagãos, até a difundida relação do vinho com Dionísio e Baco. Porém, hoje trarei Diana para mostrar uma profunda relação entre a associação vinho-Santo Sangue e pão-Santo Corpo e o olhar espiritual pré-cristão.


  Diana é uma deusa relacionada com a Lua e a Floresta, embora o estudo aprofundado dessa divindade mostre-a como "Senhora de Todo o Cosmos e Natureza". Sua correspondência cósmica vem também de suas interpretações como Criadora, mas principalmente ao observar que anterior à sua assimilação lunar, a divindade fora vista como a "Senhora das Estrelas e dos Céus", além da etimologia de seu nome apontar para o dia e o Sol (um aspecto curioso e misterioso para uma Deusa que, dentro de nossa História mais conhecida, é na maioria das vezes noturna). Já a carga de "Senhora de Toda a Natureza" possui uma base científica, no sentindo de observação e sabedoria sobre o funcionamento dos ciclos da Terra: Se uma Divindade rege a Lua, necessariamente rege o Mar. E se rege o Mar, necessariamente rege toda a Vida na forma que conhecemos. Não por acaso, a "Senhora da Lua" é também a "Senhora dos Bosques". 

  Em seu culto mais primitivo, ou seja, não o Romano (e muito menos os que sustentam afirmações de Diana como correspondente de Ártemis), encontramos o pão e o vinho com atribuições semelhantes às do Cristianismo. Algumas das evidências folclóricas provavelmente são d.C., resgatadas na Itália, mas são certamente projeções de cultos etruscos muito mais antigos que a própria mitologia romana clássica. 

  A primeira evidência é encontrada na "Conjuração do Vinho à Diana", uma cerimônia que intenta tanto aprimorar a qualidade da bebida quanto clamar por uma boa e saudável safra de uvas quando as condições estão desfavoráveis. Abaixo, segue um fragmento da conjuração em tradução adaptada ao português:

"Bebo porém não do vinho,
Mas do Sangue de Diana,
Pois o vinho se transformou em seu sangue,
e se derramou em minhas videiras em crescimento..."

 Dentro de uma lógica pagã, é óbvio associar os alimentos ao corpo e as bebidas ao sangue dos Deuses, uma vez que são produtos da Natureza e essa Natureza é literalmente parte do corpo material dos Deuses. Mas, o vinho toma uma simbologia especial por ser uma bebida que traz alegria e vigor ao consumidor, o que casa com a ideia de que todo prazer é um ato ritual à Diana.

 Em relação ao pão como corpo, observem um fragmento da Conjuração do Trigo:

"Conjuro-te, ó trigo! Que és nosso corpo e sem a ti não podemos viver..."

 Nesse trecho, o trigo (em alusão ao pão), é tratado não como corpo de Diana, mas como o nosso, o que sob um olhar teológico de culto à Terra, significa literalmente a mesma coisa. Mas caso isso esteja passível de interpretações diferentes, encontramos uma afirmação mais clara em uma invocação de Diana:

"Não asso o pão com o sal,
Nem cozinho o mel com o vinho,
Asso o corpo, o sangue e a alma,
A alma da (grande) Diana..."

 Para além disso, vamos encontrar na literatura diversas associações da Deusa ao pão e principalmente ao vinho, mas chamo a atenção para esta última cerimônia pois ela está associada a uma ceia devotiva, portanto santa, onde os celebrantes sentam-se à mesa e celebram o corpo e sangue de Diana, num mistério semelhante à "Santa Ceia", que se difere principalmente por ser feito na escuridão sagrada da noite e com os corpos dos homens e mulheres completamente desnudos, pois além de a nudez ser sagrada à Diana, a noite evocava um espirito de liberdade e afastamento das opressões que deveria ser celebrado, sem a maldade e banalização associada à nudez de hoje em dia.


 Por fim, é notável que até hoje o pão é um símbolo comum do alimento e do sustento, enquanto o vinho ainda rega os corações e os desejos de homens e mulheres, mostrando uma sacralidade que surge em tempos imemoráveis, se ressignifica no mundo cristão e perdura no imaginário, independente de credos.
Texto de Iago Ferraz Wild (Puck)- Gruta do Bardo.



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"La Dianara" de Enrico Isernia e "Diana cacciatrice" de Guercino, respectivamente.

Textos originais, em italiano,
extraídos de "Aradia:
O Evangelho das Bruxas",
obra do antropólogo
Charles G. Leland.

sábado, 7 de novembro de 2015

O Mantenedor da Vida

O Mantenedor da Vida 
Por Iago Ferraz Wild (Puck)

   Hades entre os gregos, Plutão entre romanos e Aita entre os etruscos. O Senhor dos Mortos e do Submundo sempre intimidou os mortais devido suas associações como deidade. Platão afirmou que a pronúncia de seu nome era evitada ao máximo pelas pessoas e Homero foi mais longe, o descrevendo como o Deus mais odiado pelos mortais. 
   Por qual motivo Hades, que muitos supõem ser Zeus, Poseidon e Dionísio, foi tão temido e odiado? Por qual motivo, nas filosofias pagãs modernas, ainda é evitado e considerado intimidador por ser considerado um Deus Negro? Tudo isso se explica pela tendência do ser humano em se preocupar mais com a morte do que com a vida, mais com os fins do que com os inícios e meios. 
   Ah, a morte! A temida morte. Tememos perder quem amamos, tememos que quem nos ama nos perca e, principalmente, tememos que a atual vida termine, pois o término é um constante lembrete do fato de que nós, independente da nossa arrogância específica, não temos controle. Sobre nada. 
   Como se não bastasse representar tudo o que mais tememos e não aceitamos, os mitos nos mostram Aita como o raptor daquilo que representa o que mais amamos e aceitamos: A vida, a fertilidade, a beleza...  Mas, ignorando a maquiagem poética e romântica, encontramos no Senhor da Morte e em seu caráter raptor, no sofrimento de Deméter e Perséfone (se você não está familiarizadx, leia os mitos de Hades e Perséfone antes de continuar a leitura) e em todos os fins e sacrifícios, a mais importante face de Hades: O Mantenedor da Vida. 
"The Mythological Tarot", O Arcano Maior "A Morte", do Tarot, é conhecido 
por simbolizar a natureza cíclica, fins e renovações, representado por Hades neste deck.

   Hades é a Terra e o seu interior. É o ciclador da vida. O Sequestro de Perséfone ilustra na verdade, a entrega e amor dela à Hades. Durante a Primavera e o Verão, a maioria das plantas e animais vivem fortes e saudáveis, pois essa vida e fertilidade são Perséfone, a Deusa das Plantas, sempre lembrada pelas flores e perfumes. Nesse propício período sazonal, podemos observar de forma bonita como a Natureza funciona: a vida dos carnívoros depende da vida dos herbívoros; a vida dos herbívoros depende da vida das plantas; a vida das plantas depende da fertilidade da terra. E o que torna a terra fértil e permite que toda a vida continue a seguir? Perséfone! A belíssima Senhora das Flores e Perfumes, Rainha do Submundo.
   É ela quem se entrega ao Senhor do Submundo, deixando que suas flores sequem, que suas folhas caiam, que suas frutas apodreçam e que seus caules e raízes morram. A entrada de Perséfone ao Submundo é a Promessa de Renascimento, a devolução de nutrientes e de riqueza para a Terra (Hades), que permite, ao final do período de Outono-Inverno, que a vida se renove e dance com Perséfone. 
   Em seu período nas profundezas, quando é chamada de Kore, Persephone me faz lembrar da simbologia dos animais que originaram a imagem chifruda de vários Deuses. Como o Veado que ao ser caçado, representa o sacrifício divino que é feito para que possamos sobreviver.


Persephone and Hades - Amy Erickson


   Cada flor e cada folha que admiramos, cada fruta que comemos, é resultado da dança de Perséfone e do Deus da Morte, que também é o Mantenedor da Vida, o Senhor da Terra, Senhor dos Fungos e Decompositores, e portanto, um Deus da Vida. Em cada folha caída, não importa a estação, um beijo de Perséfone em Hades. Em cada semente que brota, um beijo de Hades em Perséfone.

No próximo texto vou desenvolver um pouco mais  o assunto, abordando os Mistérios Eleusinos. 

Que a chuva molhe a terra e que você sinta o perfume de Hades ao subir do petrichor. 
Texto de Iago Ferraz Wild (Puck)- Gruta do Bardo.